Marcação a Mercado: O Que É e Quanto Você Ganha ou Perde ao Vender Antes do Vencimento
O número vermelho no seu extrato não é uma opinião do mercado sobre o seu título: é uma divisão que você mesmo pode conferir. Marcação a mercado é atualizar o preço do título pelo que ele vale hoje, e não pelo que renderia se ficasse até o fim. A conta é uma só: o preço unitário é o valor de resgate dividido por (1 + taxa) elevado a dias úteis sobre 252. Em 10 de agosto de 2026, o Tesouro Prefixado 2029 estava a 14,21% ao ano com 598 dias úteis pela frente — e 1.000 dividido por 1,1421 elevado a 598/252 dá R$ 729,5704. O preço oficial publicado naquele dia foi R$ 729,57.
A resposta curta às duas perguntas que trazem você aqui: o deságio não é dinheiro que sumiu, é a mesma quantia futura descontada por uma taxa maior; e se você vender hoje e reaplicar o dinheiro na taxa nova, pelo prazo que faltava, chega ao vencimento original com exatamente o mesmo valor. A marcação a mercado só vira perda de verdade em três casos, e nenhum deles é "o mercado caiu". O simulador acima faz a conta com os seus números; o resto desta página mostra de onde ela sai.
O que é marcação a mercado — e o que ela não é
Todo título de renda fixa é uma promessa de pagamento futuro. O Tesouro Prefixado promete R$ 1.000 na data de vencimento, e ponto: esse número não muda nunca, aconteça o que acontecer com os juros. O que muda é quanto alguém paga hoje para receber aqueles R$ 1.000 lá na frente. Se a taxa de juros da economia sobe, quem compra agora exige um desconto maior sobre o valor futuro — e o preço do seu título, que carrega a mesma promessa, cai junto. É só isso.
Marcar na curva é o oposto: é fingir que o preço avança todo dia pela taxa que você contratou, ignorando o mercado. Os dois números existem e os dois estão certos, mas respondem a perguntas diferentes. A curva responde "quanto eu já acumulei se ficar até o fim". O mercado responde "quanto sai do meu bolso se eu quiser o dinheiro hoje". Confundir os dois é a origem de quase todo susto com renda fixa.
E há uma coisa que a marcação a mercado definitivamente não é: risco de calote. Você não está perdendo o dinheiro porque o emissor ficou pior. A promessa é a mesma, o pagador é o mesmo. O que mudou foi o preço de mercado do tempo.
Por que esse número apareceu no seu extrato
A regra que popularizou o assunto são as Regras e Procedimentos para Apuração de Valores de Referência nº 09, de 2 de janeiro de 2023, da ANBIMA. O art. 6º determina que os títulos "devem, obrigatoriamente, ter seu valor de referência apurado a mercado", e o §2º é explícito ao vedar "a utilização apenas de formas estáticas baseadas em custo de aquisição, accrual do papel ou na taxa negociada na compra". O art. 8º manda que o valor apareça em extrato ou em outro ambiente logado, e o art. 5º fixa a periodicidade mínima: mensal, não diária.
Agora o detalhe que quase nenhuma matéria conta. O art. 2º diz, com todas as letras, que se sujeitam ao normativo "as debêntures, CRA, CRI e títulos públicos federais, exceto tesouro direto". Ou seja: a norma alcança quatro tipos de ativo e deixa de fora justamente os mais populares no varejo. CDB, LCI e LCA não estão na lista. O Tesouro Direto está expressamente excluído — e por um bom motivo: ele já publicava preço diário muito antes de 2023. Vale registrar também que se trata de autorregulação do mercado, ligada ao Código de Distribuição, e não de lei nem de norma da CVM. Quem escreve "a lei da marcação a mercado" está errado em dois pontos ao mesmo tempo.
Como o preço é calculado, passo a passo
A metodologia oficial da B3 para títulos públicos traz a fórmula em uma linha: PU = VNA ÷ ((Taxa ÷ 100) + 1) elevado a (DU ÷ 252). Para o Tesouro Prefixado, o VNA é fixo em R$ 1.000,00, o que reduz tudo a um desconto simples. Estas são as peças:
| Peça | O que é | Fórmula |
|---|---|---|
| PU (preço unitário) | quanto vale um título hoje | VNA ÷ (1 + i)du/252 |
| VNA | valor de resgate; fixo no prefixado, corrigido pelo IPCA na NTN-B | R$ 1.000,00 (LTN) |
| du | dias úteis entre a data de referência e o vencimento | ano de 252 dias úteis |
| Cotação (IPCA+) | a parte do preço que a marcação mexe | 1 ÷ (1 + i)du/252 |
| Taxa implícita | a taxa que o preço que você pagou embute | (1.000 ÷ PU)252/du − 1 |
| Duration modificada | o tamanho aproximado do tranco | (du ÷ 252) ÷ (1 + i) |
São três detalhes que separam a conta certa da conta quase certa. Primeiro, du são dias úteis, e o calendário é o do mercado financeiro: além dos nove feriados nacionais, entram a segunda e a terça de Carnaval, a Sexta-Feira Santa e Corpus Christi. Sem esses quatro móveis o preço não fecha. Segundo, a contagem inclui a data de referência e exclui a do vencimento. Terceiro, o preço oficial é truncado em duas casas, não arredondado: R$ 834,5298 vira R$ 834,52, e não R$ 834,53.
Com essas três regras, a fórmula reproduz o preço oficial ao centavo. Abaixo, os cinco Tesouro Prefixado em oferta na última data-base publicada:
| Título (10/08/2026) | Taxa de venda | du | Cálculo | Preço oficial |
|---|---|---|---|---|
| Tesouro Prefixado 2027 | 13,63% | 99 | 951,0409 | R$ 951,04 |
| Tesouro Prefixado 2028 | 13,91% | 350 | 834,5298 | R$ 834,52 |
| Tesouro Prefixado 2029 | 14,21% | 598 | 729,5704 | R$ 729,57 |
| Tesouro Prefixado 2031 | 14,48% | 1.099 | 554,4643 | R$ 554,46 |
| Tesouro Prefixado 2032 | 14,59% | 1.351 | 481,8456 | R$ 481,84 |
Um aviso prático para quem for repetir a conta em casa: não reconstrua o fluxo a partir da taxa publicada, que tem só duas casas decimais. Um erro de um único dia útil vale 0,05% do preço a 14% ao ano, e um centésimo de ponto na taxa vale quase o mesmo. O caminho certo é o inverso — derivar a taxa do preço que você efetivamente pagou. Se quiser conferir a contagem de dias, a calculadora de datas faz o serviço (marcando a opção de descontar Carnaval e Corpus Christi, que é o calendário usado aqui).
Exemplo prático: dez títulos comprados no melhor momento da história
Em 27 de dezembro de 2023, o Tesouro Prefixado 2029 foi vendido a 10,11% ao ano, com preço de compra de R$ 619,00 — a menor taxa já registrada para esse título. Imagine dez títulos: R$ 6.190,00 investidos, com direito a R$ 10.000,00 em 1º de janeiro de 2029. A taxa que o preço pago realmente embute é 10,1103% ao ano, e a prova é direta: 619,00 × 1,101103 elevado a 1255/252 dá exatamente R$ 1.000,00.
Menos de um ano depois, em 19 de dezembro de 2024, o mesmo título era negociado a 16,01% ao ano, e o preço despencou para R$ 552,10 — o pior dia da história do papel. Veja o que aparecia no extrato:
| 19/12/2024 (o fundo) | 10/08/2026 | |
|---|---|---|
| Taxa de mercado | 16,01% a.a. | 14,21% a.a. |
| Preço unitário | R$ 552,10 | R$ 729,57 |
| Valor de mercado (10 títulos) | R$ 5.521,01 | R$ 7.295,70 |
| Valor na curva | R$ 6.802,81 | R$ 7.956,86 |
| Deságio contra a curva | −R$ 1.281,81 (−18,84%) | −R$ 661,16 (−8,31%) |
| Resultado contra o preço pago | −R$ 668,99 (−10,81%) | +R$ 1.105,70 (+17,86%) |
| Equivalente ao ano | −11,01% a.a. | +6,51% a.a. |
Repare que são duas contas diferentes, e o extrato costuma mostrar as duas sem explicar. O deságio de 18,84% compara o preço de mercado com a curva — é o que você "deixou de acumular" naquele instante. Os 10,81% comparam com o que saiu do seu bolso. E o mais importante: em 10 de agosto de 2026 o título ainda estava 8,31% abaixo da curva e, mesmo assim, já acumulava 17,86% de ganho sobre o preço pago. Deságio e prejuízo não são a mesma coisa.
Para dimensionar a violência do movimento: o preço fechou 18/12/2024 em R$ 569,84, caiu para R$ 552,10 no dia seguinte (−3,11% em 24 horas) e voltou para R$ 571,47 no dia 20 (+3,51%). Quem olhou o aplicativo exatamente no dia 19 viu o pior número de uma série de mais de mil pregões.
Quanto o preço mexe quando a taxa mexe
O tamanho do tranco depende quase inteiramente do prazo. Um título curto mal se move; um longo balança feito ação. A tabela mostra a variação do preço de um prefixado com taxa base de 14% ao ano, para choques de 1 a 3 pontos percentuais:
| Prazo | −3 p.p. | −2 p.p. | −1 p.p. | +1 p.p. | +2 p.p. | +3 p.p. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 ano | +2,70% | +1,79% | +0,88% | −0,87% | −1,72% | −2,56% |
| 2 anos | +5,48% | +3,60% | +1,78% | −1,73% | −3,42% | −5,06% |
| 3 anos | +8,33% | +5,45% | +2,68% | −2,59% | −5,08% | −7,50% |
| 5 anos | +14,26% | +9,25% | +4,50% | −4,27% | −8,33% | −12,18% |
| 10 anos | +30,56% | +19,36% | +9,21% | −8,36% | −15,96% | −22,88% |
Dois pontos percentuais na taxa — algo que o Banco Central entrega em poucas reuniões — tiram 1,72% de um título de um ano e 15,96% de um de dez anos. É o mesmo emissor, o mesmo risco de crédito, a mesma promessa. Muda só o tempo até o pagamento.
Duration: a regra de bolso e o erro dela
A duration modificada é o atalho que o mercado usa para estimar isso de cabeça. Num título sem cupom ela é quase trivial: prazo em anos dividido por (1 + taxa). A previsão é que o preço caia "duration × variação da taxa". A tabela compara a previsão com o resultado exato, para um choque de +2 pontos percentuais a partir de 14% ao ano:
| Prazo | Duration modificada | Regra de bolso prevê | Queda real | Erro |
|---|---|---|---|---|
| 1 ano | 0,877 | −1,75% | −1,72% | 0,03 p.p. |
| 2 anos | 1,754 | −3,51% | −3,42% | 0,09 p.p. |
| 3 anos | 2,632 | −5,26% | −5,08% | 0,18 p.p. |
| 5 anos | 4,386 | −8,77% | −8,33% | 0,44 p.p. |
| 10 anos | 8,772 | −17,54% | −15,96% | 1,58 p.p. |
A regra funciona bem no curto e erra muito no longo — e erra sempre para o mesmo lado: ela exagera a queda. Esse erro não é um defeito a ser corrigido, é um fenômeno com nome próprio, e ele joga a seu favor.
O primeiro achado: perder e ganhar não são simétricos
Como o preço é uma divisão, e não uma reta, subir a taxa em X pontos tira menos do que descer os mesmos X pontos devolve. Essa curvatura se chama convexidade, e ela cresce com o tamanho do choque. Num prefixado de cinco anos partindo de 14% ao ano:
| Choque | Se a taxa sobe | Se a taxa cai | Diferença a seu favor |
|---|---|---|---|
| 1 ponto percentual | −4,27% | +4,50% | 0,23 p.p. |
| 2 pontos percentuais | −8,33% | +9,25% | 0,92 p.p. |
| 3 pontos percentuais | −12,18% | +14,26% | 2,08 p.p. |
No título de dez anos a assimetria fica gritante: três pontos para cima custam 22,88%, três pontos para baixo devolvem 30,56% — 7,69 pontos percentuais de vantagem. Em outras palavras, quem compra um prefixado longo quando a taxa já está alta tem o jogo estruturalmente a favor: o cenário ruim machuca menos do que o cenário bom beneficia. Isso não é otimismo, é aritmética da divisão.
O segundo achado: vender e reaplicar é neutro
Aqui está a parte que praticamente nenhum texto sobre o assunto traz, e que muda a decisão. Volte aos dez títulos marcados a R$ 5.521,01 no pior dia de 2024. Suponha que o investidor tenha vendido ali, no fundo do poço, e reaplicado o dinheiro pelos 1.008 dias úteis que ainda faltavam, na mesma taxa de 16,01% que acabara de machucá-lo. Quanto ele teria em 1º de janeiro de 2029?
R$ 10.000,00. Exatamente o mesmo que teria segurando o título. E não é coincidência: é a própria fórmula do preço lida ao contrário. Se PU = 1.000 ÷ (1 + i)du/252, então PU × (1 + i)du/252 = 1.000, sempre. O deságio e a taxa maior se anulam por construção. O preço caiu justamente porque o dinheiro passou a render mais dali para a frente.
É por isso que a frase "o prejuízo só existe se você vender" é imprecisa. Vender, sozinho, não realiza perda nenhuma. O que realiza a perda é o destino do dinheiro depois da venda:
| Se você reaplicar a… | Bruto em 01/01/2029 | Líquido | Contra segurar o título |
|---|---|---|---|
| 10,00% a.a. | R$ 8.083,31 | R$ 7.698,96 | −R$ 1.729,54 |
| 12,00% a.a. | R$ 8.687,41 | R$ 8.212,45 | −R$ 1.216,05 |
| 14,00% a.a. | R$ 9.324,76 | R$ 8.754,20 | −R$ 674,30 |
| 16,01% a.a. (a taxa do dia) | R$ 10.000,00 | R$ 9.328,15 | −R$ 100,35 |
| 18,00% a.a. | R$ 10.704,01 | R$ 9.926,56 | +R$ 498,06 |
| 20,00% a.a. | R$ 11.448,36 | R$ 10.559,26 | +R$ 1.130,76 |
A coluna do meio é a chave. Reaplicar abaixo de 16,01% perde de verdade, e a perda é proporcional ao quanto você aceitou a menos. E se o dinheiro simplesmente for gasto, o buraco é o tamanho inteiro do que faltava render: R$ 5.521,01 na mão contra R$ 9.428,50 líquidos no vencimento, uma diferença de R$ 3.907,49.
Quando a marcação a mercado vira perda de verdade
Resumindo em três condições — e só nelas:
- Você vende e gasta o dinheiro. Aí o rendimento que faltava simplesmente não acontece. É o único caso em que a perda tem o tamanho que o extrato sugere.
- Você vende e reaplica a uma taxa menor. A perda é a diferença entre as duas taxas, composta pelo prazo que faltava. Reaplicar na poupança ou num CDB de 90% do CDI depois de vender um prefixado de 16% é o exemplo clássico.
- Você vende e reaplica por um prazo mais curto. A neutralidade vale para o prazo que faltava. Trocar quatro anos de 16% por um CDB de um ano só empata no primeiro ano; depois disso você fica exposto ao que o mercado oferecer.
Há ainda uma quarta condição, que é a mais fácil de esquecer e a única que aparece mesmo quando você faz tudo "certo": o imposto.
O que o imposto tira da venda antecipada
Olhe de novo para a linha destacada da tabela anterior. Vender no fundo e recomprar exatamente o mesmo título devolve R$ 10.000,00 brutos, mas o líquido cai de R$ 9.428,50 para R$ 9.328,15 — uma diferença de R$ 100,35, ou 1,62% do valor investido, que aparece do nada. O motivo é que a venda refaz a base de cálculo do IR. Quem segurou tem ganho de R$ 3.810,00 e paga 15% sobre isso. Quem vendeu a R$ 5.521,01 e recomprou passa a ter um custo de aquisição menor, e o ganho tributável até o vencimento vira R$ 4.479,00. Mesmo dinheiro no fim, imposto maior no caminho.
E o pior: o prejuízo realizado não vale nada. Em renda variável, perda gera crédito para abater ganho futuro; em renda fixa, não existe essa compensação. Vender no vermelho paga IR zero e acabou — você não leva nenhum crédito para a operação seguinte. Nas contas de imposto de renda essa assimetria é o que torna o giro de posição estruturalmente caro.
Vender no lucro também custa. Em 10 de agosto de 2026 os mesmos dez títulos valiam R$ 7.295,70, com R$ 1.105,70 de ganho: R$ 165,86 de IR na hora. O líquido reaplicado a 14,21% chega a R$ 9.376,24 no vencimento, contra R$ 9.428,50 de quem não mexeu — R$ 52,26 a menos, só de antecipar imposto.
Quem vende muito cedo enfrenta ainda o IOF. O Decreto 6.306/2007 cobra o imposto sobre o rendimento — nunca sobre o principal — em escala regressiva que zera no 30º dia. Sobre R$ 100 de rendimento:
| Dias corridos | IOF | IR | Sobra do rendimento |
|---|---|---|---|
| 1 dia | R$ 96,00 | R$ 0,90 | R$ 3,10 |
| 10 dias | R$ 66,00 | R$ 7,65 | R$ 26,35 |
| 20 dias | R$ 33,00 | R$ 15,08 | R$ 51,93 |
| 29 dias | R$ 3,00 | R$ 21,83 | R$ 75,18 |
| 30 dias | R$ 0,00 | R$ 22,50 | R$ 77,50 |
| Acima de 720 dias | R$ 0,00 | R$ 15,00 | R$ 85,00 |
Uma armadilha de contagem: o prazo do IR e do IOF conta em dias corridos, enquanto o preço conta em dias úteis. São dois relógios diferentes rodando na mesma operação, e misturá-los é erro comum até em planilha de assessor.
Levar até o vencimento: o deságio expira sozinho
Esta é a parte tranquilizadora, e ela é mecânica. Se a taxa de mercado nunca mais mexer, o deságio some assim mesmo — porque o expoente du/252 vai encolhendo até zerar. Não é preciso "recuperação": o preço converge para R$ 1.000 pela passagem do tempo.
| Data | Dias úteis restantes | Preço de mercado | Preço na curva | Deságio |
|---|---|---|---|---|
| 10/08/2026 | 598 | R$ 729,57 | R$ 795,69 | −8,31% |
| 04/01/2027 | 499 | R$ 768,66 | R$ 826,37 | −6,98% |
| 01/07/2027 | 376 | R$ 820,16 | R$ 866,14 | −5,31% |
| 03/01/2028 | 248 | R$ 877,42 | R$ 909,57 | −3,53% |
| 03/07/2028 | 124 | R$ 936,71 | R$ 953,71 | −1,78% |
| 01/01/2029 | 0 | R$ 1.000,00 | R$ 1.000,00 | 0,00% |
O deságio não se recupera: ele expira junto com o prazo. É a mesma lógica dos juros compostos vista de trás para frente, e é o que a calculadora de valor presente faz em qualquer contexto.
Tesouro IPCA+: o que muda com o VNA
No Tesouro IPCA+ o preço tem duas partes: PU = VNA × cotação. O VNA é o valor nominal corrigido pela inflação desde 2000 — ele só sobe, ao ritmo do IPCA, e a marcação a mercado não o toca. Quem se mexe é a cotação, que é exatamente o mesmo fator de desconto de antes: 1 ÷ (1 + taxa real)du/252.
Dá para provar isso com os preços públicos, sem acesso a nenhum sistema. Pegando os seis Tesouro IPCA+ (Principal) negociados em 10 de agosto de 2026 e dividindo cada preço pela respectiva cotação, todos devolvem o mesmo VNA: R$ 4.741,39, com dispersão de R$ 0,04 — o resíduo do arredondamento do preço em duas casas. Se a fórmula fosse outra, cada título daria um número diferente.
| Tesouro IPCA+ (10/08/2026) | Taxa real | du | Cotação | Preço | VNA implícito |
|---|---|---|---|---|---|
| 2029 | 8,18% | 689 | 0,806562 | R$ 3.824,24 | R$ 4.741,41 |
| 2035 | 8,08% | 2.193 | 0,508552 | R$ 2.411,24 | R$ 4.741,38 |
| 2045 | 7,57% | 4.699 | 0,256484 | R$ 1.216,09 | R$ 4.741,39 |
| 2050 | 7,51% | 6.014 | 0,177611 | R$ 842,12 | R$ 4.741,37 |
A consequência prática é que o IPCA+ acumula dois movimentos ao mesmo tempo: a correção pela inflação, que é sua e não volta atrás, e a marcação, que oscila. Como o prazo desses títulos costuma ser longo, eles são os que mais balançam — foi o Tesouro IPCA+ 2035 que registrou a maior queda de preço desde 2023. Se você acompanha o que é o IPCA ou compara com o IGP-M, vale lembrar que a inflação entra no VNA, e não na cotação. Nas versões com juros semestrais, cada cupom é um fluxo descontado separadamente, e o cupom de 6% ao ano equivale a 2,9563% ao semestre — porque a capitalização é exponencial, não metade.
O Tesouro Selic também tem marcação — e por que ela é minúscula
Ao contrário do que muita gente supõe, o Tesouro Selic tem marcação a mercado. A diferença é que ele acompanha a taxa diária, de modo que o desconto se aplica apenas ao pequeno ágio ou deságio negociado sobre a Selic. Em 10 de agosto de 2026 ele saía a "Selic + 0,04%", com preço de R$ 19.598,00. Comparando a maior queda de preço de cada título desde 2 de janeiro de 2023:
| Título | Maior queda | Do pico… | …ao fundo |
|---|---|---|---|
| Tesouro Prefixado 2031 | −16,49% | 06/03/2024 · R$ 499,53 | 19/12/2024 · R$ 417,16 |
| Tesouro IPCA+ 2035 | −14,18% | 16/08/2024 · R$ 2.337,98 | 30/01/2025 · R$ 2.006,47 |
| Tesouro Prefixado 2029 | −11,06% | 21/08/2024 · R$ 620,79 | 19/12/2024 · R$ 552,10 |
| Tesouro Selic 2029 | −0,03% | 28/04/2023 · R$ 12.987,61 | 02/05/2023 · R$ 12.984,15 |
Três centésimos de por cento contra dezesseis por cento. É essa diferença, e não a rentabilidade, que faz do Tesouro Selic o título indicado para reserva de emergência: dinheiro que pode ser chamado a qualquer momento não pode depender do humor da curva de juros. Com a Selic hoje em 14,00% ao ano, ele rende bem — mas o ponto é a estabilidade do preço. Se a dúvida é essa, vale entender o que é a Selic, o que é o CDI e qual a diferença entre os dois.
CDB, LCI e debênture: existe, mas quem recompra é o banco
Economicamente, todo título de renda fixa tem marcação a mercado — inclusive o seu CDB. A diferença é institucional, e ela importa. Primeiro, como vimos, CDB, LCI e LCA estão fora da regra da ANBIMA, então o extrato não é obrigado a mostrar o valor de mercado, e a maioria não mostra. Segundo, e mais importante: não há mercado secundário de verdade. Quem recompra o seu CDB antes do vencimento é o próprio banco emissor, pelo preço que ele decidir, quando decidir — e a chamada "liquidez diária" é uma liberalidade contratual, não um direito de mercado.
Na prática, isso significa que a marcação existe mas você não a vê, e o desconto na recompra tende a ser pior do que o de um título público equivalente. Debêntures, CRI e CRA estão na regra da ANBIMA e por isso mostram o preço — mas negociam pouco, o que torna o valor de referência mais estimativa do que cotação. Ao comparar alternativas com a calculadora de rendimento de CDB ou a calculadora de LCI e LCA, guarde o critério: a liquidez de um papel se mede pela facilidade de vender a preço justo, não pela existência de um botão de resgate.
Erros comuns
- Achar que deságio é prejuízo. Em 10/08/2026 o título do exemplo estava 8,31% abaixo da curva e, ao mesmo tempo, 17,86% acima do preço pago. São duas contas diferentes.
- Confundir a norma com uma lei. A regra nº 09/2023 é autorregulação da ANBIMA, cobre debêntures, CRA, CRI e títulos públicos, e exclui o Tesouro Direto, o CDB, a LCI e a LCA.
- Contar dias corridos no preço. O preço usa dias úteis com o calendário do mercado, que inclui Carnaval e Corpus Christi; o imposto usa dias corridos. Um dia útil de erro vale 0,05% do preço.
- Vender no pânico e deixar o dinheiro parado. A venda em si é neutra; o que realiza a perda é reaplicar a uma taxa menor, por prazo menor, ou gastar.
- Girar a posição achando que "dá na mesma". Dá na mesma antes do imposto. Depois dele custou R$ 100,35 no exemplo, porque perda em renda fixa não gera crédito fiscal.
- Usar a regra de bolso da duration em título longo. Num papel de dez anos ela erra 1,58 ponto percentual, sempre exagerando a queda — o que faz o investidor vender achando que está pior do que está.
Ferramentas relacionadas
Para o passo anterior a esta página, veja como investir no Tesouro Direto e a comparação entre renda fixa e renda variável. A mecânica de desconto usada aqui é a mesma da calculadora de valor presente e da calculadora de juros compostos; para financiamentos, a lógica reaparece na comparação entre a tabela Price e o SAC.
Para comparar alternativas de aplicação, use a calculadora de rendimento de CDB, a calculadora de LCI e LCA e a calculadora de poupança, lembrando que em fundos ainda entra o come-cotas. Do lado dos tributos, veja a calculadora de imposto de renda; para o calendário, a calculadora de datas conta os dias úteis. E para dimensionar o custo do outro lado do balcão, compare com quanto rende o FGTS e com a calculadora de juros do cartão de crédito.
Perguntas frequentes
O que é marcação a mercado?
É a atualização diária do preço do seu título de renda fixa pelo valor que ele vale hoje no mercado, e não pelo que renderia se ficasse até o vencimento. O cálculo é uma única divisão: o preço unitário é o valor de resgate dividido por (1 + taxa) elevado a dias úteis sobre 252. Se a taxa negociada hoje está acima da que você contratou, o preço cai e aparece um deságio; se está abaixo, aparece um ágio. Nada disso muda o que você recebe no vencimento — muda o que alguém pagaria para comprar o seu título agora.
Marcação a mercado é prejuízo de verdade?
Só em três situações. Se você levar o título até o vencimento, o deságio simplesmente expira: o preço converge para o valor de face sozinho, sem precisar de nenhuma recuperação do mercado. Ele vira perda de verdade se você vender e gastar o dinheiro, se vender e reaplicar a uma taxa menor, ou se reaplicar por um prazo mais curto. Vender e reaplicar na própria taxa de mercado do dia devolve exatamente o mesmo montante no vencimento original — por construção da fórmula.
Como calcular o preço do meu título hoje?
Use PU = 1.000 ÷ (1 + taxa)^(du/252), em que 1.000 é o valor de resgate do Tesouro Prefixado, "taxa" é a taxa de mercado do dia e "du" é o número de dias úteis entre hoje e o vencimento. Em 10 de agosto de 2026 o Tesouro Prefixado 2029 estava a 14,21% ao ano e faltavam 598 dias úteis: 1.000 ÷ 1,1421^(598/252) = R$ 729,5704, e o preço oficial publicado naquele dia foi R$ 729,57. A mesma conta acerta ao centavo os cinco prefixados em oferta.
Por que a marcação a mercado apareceu no meu extrato?
Por causa das Regras e Procedimentos para Apuração de Valores de Referência nº 09 da ANBIMA, em vigor desde 2 de janeiro de 2023, que obriga a mostrar o valor de mercado em extrato ou ambiente logado. Mas atenção ao alcance real: o art. 2º alcança debêntures, CRA, CRI e títulos públicos federais, e exclui expressamente o Tesouro Direto. CDB, LCI e LCA também estão fora. É autorregulação do mercado, não lei nem norma da CVM.
Vender no prejuízo e recomprar o mesmo título compensa?
Não, e o motivo é tributário. Antes do imposto a operação é neutra: quem vendeu dez Tesouro Prefixado 2029 no pior dia, 19 de dezembro de 2024, por R$ 5.521,01 e recomprou na mesma taxa chegaria em 2029 com os mesmos R$ 10.000. Mas a recompra cria uma base de cálculo nova e maior para o imposto de renda: o líquido cai de R$ 9.428,50 para R$ 9.328,15, uma diferença de R$ 100,35. Perda em renda fixa não gera crédito fiscal, então o prejuízo realizado não abate nada.
O Tesouro Selic tem marcação a mercado?
Tem, mas ela é minúscula. Como o título acompanha a Selic diária, o desconto se aplica apenas ao pequeno ágio ou deságio negociado sobre a taxa — em 10 de agosto de 2026 o Tesouro Selic 2029 saía a Selic mais 0,04% ao ano, com preço de R$ 19.598,00. A maior queda do preço desse título desde 2023 foi de 0,03%, contra 11,06% do Tesouro Prefixado 2029 e 14,18% do Tesouro IPCA+ 2035 no mesmo período. É por isso que ele é o indicado para reserva de emergência.