Marcação a Mercado: O Que É e Quanto Você Ganha ou Perde ao Vender Antes do Vencimento

O número vermelho no seu extrato não é uma opinião do mercado sobre o seu título: é uma divisão que você mesmo pode conferir. Marcação a mercado é atualizar o preço do título pelo que ele vale hoje, e não pelo que renderia se ficasse até o fim. A conta é uma só: o preço unitário é o valor de resgate dividido por (1 + taxa) elevado a dias úteis sobre 252. Em 10 de agosto de 2026, o Tesouro Prefixado 2029 estava a 14,21% ao ano com 598 dias úteis pela frente — e 1.000 dividido por 1,1421 elevado a 598/252 dá R$ 729,5704. O preço oficial publicado naquele dia foi R$ 729,57.

A resposta curta às duas perguntas que trazem você aqui: o deságio não é dinheiro que sumiu, é a mesma quantia futura descontada por uma taxa maior; e se você vender hoje e reaplicar o dinheiro na taxa nova, pelo prazo que faltava, chega ao vencimento original com exatamente o mesmo valor. A marcação a mercado só vira perda de verdade em três casos, e nenhum deles é "o mercado caiu". O simulador acima faz a conta com os seus números; o resto desta página mostra de onde ela sai.

O que é marcação a mercado — e o que ela não é

Todo título de renda fixa é uma promessa de pagamento futuro. O Tesouro Prefixado promete R$ 1.000 na data de vencimento, e ponto: esse número não muda nunca, aconteça o que acontecer com os juros. O que muda é quanto alguém paga hoje para receber aqueles R$ 1.000 lá na frente. Se a taxa de juros da economia sobe, quem compra agora exige um desconto maior sobre o valor futuro — e o preço do seu título, que carrega a mesma promessa, cai junto. É só isso.

Marcar na curva é o oposto: é fingir que o preço avança todo dia pela taxa que você contratou, ignorando o mercado. Os dois números existem e os dois estão certos, mas respondem a perguntas diferentes. A curva responde "quanto eu já acumulei se ficar até o fim". O mercado responde "quanto sai do meu bolso se eu quiser o dinheiro hoje". Confundir os dois é a origem de quase todo susto com renda fixa.

E há uma coisa que a marcação a mercado definitivamente não é: risco de calote. Você não está perdendo o dinheiro porque o emissor ficou pior. A promessa é a mesma, o pagador é o mesmo. O que mudou foi o preço de mercado do tempo.

Por que esse número apareceu no seu extrato

A regra que popularizou o assunto são as Regras e Procedimentos para Apuração de Valores de Referência nº 09, de 2 de janeiro de 2023, da ANBIMA. O art. 6º determina que os títulos "devem, obrigatoriamente, ter seu valor de referência apurado a mercado", e o §2º é explícito ao vedar "a utilização apenas de formas estáticas baseadas em custo de aquisição, accrual do papel ou na taxa negociada na compra". O art. 8º manda que o valor apareça em extrato ou em outro ambiente logado, e o art. 5º fixa a periodicidade mínima: mensal, não diária.

Agora o detalhe que quase nenhuma matéria conta. O art. 2º diz, com todas as letras, que se sujeitam ao normativo "as debêntures, CRA, CRI e títulos públicos federais, exceto tesouro direto". Ou seja: a norma alcança quatro tipos de ativo e deixa de fora justamente os mais populares no varejo. CDB, LCI e LCA não estão na lista. O Tesouro Direto está expressamente excluído — e por um bom motivo: ele já publicava preço diário muito antes de 2023. Vale registrar também que se trata de autorregulação do mercado, ligada ao Código de Distribuição, e não de lei nem de norma da CVM. Quem escreve "a lei da marcação a mercado" está errado em dois pontos ao mesmo tempo.

Como o preço é calculado, passo a passo

A metodologia oficial da B3 para títulos públicos traz a fórmula em uma linha: PU = VNA ÷ ((Taxa ÷ 100) + 1) elevado a (DU ÷ 252). Para o Tesouro Prefixado, o VNA é fixo em R$ 1.000,00, o que reduz tudo a um desconto simples. Estas são as peças:

PeçaO que éFórmula
PU (preço unitário)quanto vale um título hojeVNA ÷ (1 + i)du/252
VNAvalor de resgate; fixo no prefixado, corrigido pelo IPCA na NTN-BR$ 1.000,00 (LTN)
dudias úteis entre a data de referência e o vencimentoano de 252 dias úteis
Cotação (IPCA+)a parte do preço que a marcação mexe1 ÷ (1 + i)du/252
Taxa implícitaa taxa que o preço que você pagou embute(1.000 ÷ PU)252/du − 1
Duration modificadao tamanho aproximado do tranco(du ÷ 252) ÷ (1 + i)

São três detalhes que separam a conta certa da conta quase certa. Primeiro, du são dias úteis, e o calendário é o do mercado financeiro: além dos nove feriados nacionais, entram a segunda e a terça de Carnaval, a Sexta-Feira Santa e Corpus Christi. Sem esses quatro móveis o preço não fecha. Segundo, a contagem inclui a data de referência e exclui a do vencimento. Terceiro, o preço oficial é truncado em duas casas, não arredondado: R$ 834,5298 vira R$ 834,52, e não R$ 834,53.

Com essas três regras, a fórmula reproduz o preço oficial ao centavo. Abaixo, os cinco Tesouro Prefixado em oferta na última data-base publicada:

Título (10/08/2026)Taxa de vendaduCálculoPreço oficial
Tesouro Prefixado 202713,63%99951,0409R$ 951,04
Tesouro Prefixado 202813,91%350834,5298R$ 834,52
Tesouro Prefixado 202914,21%598729,5704R$ 729,57
Tesouro Prefixado 203114,48%1.099554,4643R$ 554,46
Tesouro Prefixado 203214,59%1.351481,8456R$ 481,84

Um aviso prático para quem for repetir a conta em casa: não reconstrua o fluxo a partir da taxa publicada, que tem só duas casas decimais. Um erro de um único dia útil vale 0,05% do preço a 14% ao ano, e um centésimo de ponto na taxa vale quase o mesmo. O caminho certo é o inverso — derivar a taxa do preço que você efetivamente pagou. Se quiser conferir a contagem de dias, a calculadora de datas faz o serviço (marcando a opção de descontar Carnaval e Corpus Christi, que é o calendário usado aqui).

Exemplo prático: dez títulos comprados no melhor momento da história

Em 27 de dezembro de 2023, o Tesouro Prefixado 2029 foi vendido a 10,11% ao ano, com preço de compra de R$ 619,00 — a menor taxa já registrada para esse título. Imagine dez títulos: R$ 6.190,00 investidos, com direito a R$ 10.000,00 em 1º de janeiro de 2029. A taxa que o preço pago realmente embute é 10,1103% ao ano, e a prova é direta: 619,00 × 1,101103 elevado a 1255/252 dá exatamente R$ 1.000,00.

Menos de um ano depois, em 19 de dezembro de 2024, o mesmo título era negociado a 16,01% ao ano, e o preço despencou para R$ 552,10 — o pior dia da história do papel. Veja o que aparecia no extrato:

 19/12/2024 (o fundo)10/08/2026
Taxa de mercado16,01% a.a.14,21% a.a.
Preço unitárioR$ 552,10R$ 729,57
Valor de mercado (10 títulos)R$ 5.521,01R$ 7.295,70
Valor na curvaR$ 6.802,81R$ 7.956,86
Deságio contra a curva−R$ 1.281,81 (−18,84%)−R$ 661,16 (−8,31%)
Resultado contra o preço pago−R$ 668,99 (−10,81%)+R$ 1.105,70 (+17,86%)
Equivalente ao ano−11,01% a.a.+6,51% a.a.

Repare que são duas contas diferentes, e o extrato costuma mostrar as duas sem explicar. O deságio de 18,84% compara o preço de mercado com a curva — é o que você "deixou de acumular" naquele instante. Os 10,81% comparam com o que saiu do seu bolso. E o mais importante: em 10 de agosto de 2026 o título ainda estava 8,31% abaixo da curva e, mesmo assim, já acumulava 17,86% de ganho sobre o preço pago. Deságio e prejuízo não são a mesma coisa.

Para dimensionar a violência do movimento: o preço fechou 18/12/2024 em R$ 569,84, caiu para R$ 552,10 no dia seguinte (−3,11% em 24 horas) e voltou para R$ 571,47 no dia 20 (+3,51%). Quem olhou o aplicativo exatamente no dia 19 viu o pior número de uma série de mais de mil pregões.

Quanto o preço mexe quando a taxa mexe

O tamanho do tranco depende quase inteiramente do prazo. Um título curto mal se move; um longo balança feito ação. A tabela mostra a variação do preço de um prefixado com taxa base de 14% ao ano, para choques de 1 a 3 pontos percentuais:

Prazo−3 p.p.−2 p.p.−1 p.p.+1 p.p.+2 p.p.+3 p.p.
1 ano+2,70%+1,79%+0,88%−0,87%−1,72%−2,56%
2 anos+5,48%+3,60%+1,78%−1,73%−3,42%−5,06%
3 anos+8,33%+5,45%+2,68%−2,59%−5,08%−7,50%
5 anos+14,26%+9,25%+4,50%−4,27%−8,33%−12,18%
10 anos+30,56%+19,36%+9,21%−8,36%−15,96%−22,88%

Dois pontos percentuais na taxa — algo que o Banco Central entrega em poucas reuniões — tiram 1,72% de um título de um ano e 15,96% de um de dez anos. É o mesmo emissor, o mesmo risco de crédito, a mesma promessa. Muda só o tempo até o pagamento.

Duration: a regra de bolso e o erro dela

A duration modificada é o atalho que o mercado usa para estimar isso de cabeça. Num título sem cupom ela é quase trivial: prazo em anos dividido por (1 + taxa). A previsão é que o preço caia "duration × variação da taxa". A tabela compara a previsão com o resultado exato, para um choque de +2 pontos percentuais a partir de 14% ao ano:

PrazoDuration modificadaRegra de bolso prevêQueda realErro
1 ano0,877−1,75%−1,72%0,03 p.p.
2 anos1,754−3,51%−3,42%0,09 p.p.
3 anos2,632−5,26%−5,08%0,18 p.p.
5 anos4,386−8,77%−8,33%0,44 p.p.
10 anos8,772−17,54%−15,96%1,58 p.p.

A regra funciona bem no curto e erra muito no longo — e erra sempre para o mesmo lado: ela exagera a queda. Esse erro não é um defeito a ser corrigido, é um fenômeno com nome próprio, e ele joga a seu favor.

O primeiro achado: perder e ganhar não são simétricos

Como o preço é uma divisão, e não uma reta, subir a taxa em X pontos tira menos do que descer os mesmos X pontos devolve. Essa curvatura se chama convexidade, e ela cresce com o tamanho do choque. Num prefixado de cinco anos partindo de 14% ao ano:

ChoqueSe a taxa sobeSe a taxa caiDiferença a seu favor
1 ponto percentual−4,27%+4,50%0,23 p.p.
2 pontos percentuais−8,33%+9,25%0,92 p.p.
3 pontos percentuais−12,18%+14,26%2,08 p.p.

No título de dez anos a assimetria fica gritante: três pontos para cima custam 22,88%, três pontos para baixo devolvem 30,56% — 7,69 pontos percentuais de vantagem. Em outras palavras, quem compra um prefixado longo quando a taxa já está alta tem o jogo estruturalmente a favor: o cenário ruim machuca menos do que o cenário bom beneficia. Isso não é otimismo, é aritmética da divisão.

O segundo achado: vender e reaplicar é neutro

Aqui está a parte que praticamente nenhum texto sobre o assunto traz, e que muda a decisão. Volte aos dez títulos marcados a R$ 5.521,01 no pior dia de 2024. Suponha que o investidor tenha vendido ali, no fundo do poço, e reaplicado o dinheiro pelos 1.008 dias úteis que ainda faltavam, na mesma taxa de 16,01% que acabara de machucá-lo. Quanto ele teria em 1º de janeiro de 2029?

R$ 10.000,00. Exatamente o mesmo que teria segurando o título. E não é coincidência: é a própria fórmula do preço lida ao contrário. Se PU = 1.000 ÷ (1 + i)du/252, então PU × (1 + i)du/252 = 1.000, sempre. O deságio e a taxa maior se anulam por construção. O preço caiu justamente porque o dinheiro passou a render mais dali para a frente.

É por isso que a frase "o prejuízo só existe se você vender" é imprecisa. Vender, sozinho, não realiza perda nenhuma. O que realiza a perda é o destino do dinheiro depois da venda:

Se você reaplicar a…Bruto em 01/01/2029LíquidoContra segurar o título
10,00% a.a.R$ 8.083,31R$ 7.698,96−R$ 1.729,54
12,00% a.a.R$ 8.687,41R$ 8.212,45−R$ 1.216,05
14,00% a.a.R$ 9.324,76R$ 8.754,20−R$ 674,30
16,01% a.a. (a taxa do dia)R$ 10.000,00R$ 9.328,15−R$ 100,35
18,00% a.a.R$ 10.704,01R$ 9.926,56+R$ 498,06
20,00% a.a.R$ 11.448,36R$ 10.559,26+R$ 1.130,76

A coluna do meio é a chave. Reaplicar abaixo de 16,01% perde de verdade, e a perda é proporcional ao quanto você aceitou a menos. E se o dinheiro simplesmente for gasto, o buraco é o tamanho inteiro do que faltava render: R$ 5.521,01 na mão contra R$ 9.428,50 líquidos no vencimento, uma diferença de R$ 3.907,49.

Quando a marcação a mercado vira perda de verdade

Resumindo em três condições — e só nelas:

  1. Você vende e gasta o dinheiro. Aí o rendimento que faltava simplesmente não acontece. É o único caso em que a perda tem o tamanho que o extrato sugere.
  2. Você vende e reaplica a uma taxa menor. A perda é a diferença entre as duas taxas, composta pelo prazo que faltava. Reaplicar na poupança ou num CDB de 90% do CDI depois de vender um prefixado de 16% é o exemplo clássico.
  3. Você vende e reaplica por um prazo mais curto. A neutralidade vale para o prazo que faltava. Trocar quatro anos de 16% por um CDB de um ano só empata no primeiro ano; depois disso você fica exposto ao que o mercado oferecer.

Há ainda uma quarta condição, que é a mais fácil de esquecer e a única que aparece mesmo quando você faz tudo "certo": o imposto.

O que o imposto tira da venda antecipada

Olhe de novo para a linha destacada da tabela anterior. Vender no fundo e recomprar exatamente o mesmo título devolve R$ 10.000,00 brutos, mas o líquido cai de R$ 9.428,50 para R$ 9.328,15 — uma diferença de R$ 100,35, ou 1,62% do valor investido, que aparece do nada. O motivo é que a venda refaz a base de cálculo do IR. Quem segurou tem ganho de R$ 3.810,00 e paga 15% sobre isso. Quem vendeu a R$ 5.521,01 e recomprou passa a ter um custo de aquisição menor, e o ganho tributável até o vencimento vira R$ 4.479,00. Mesmo dinheiro no fim, imposto maior no caminho.

E o pior: o prejuízo realizado não vale nada. Em renda variável, perda gera crédito para abater ganho futuro; em renda fixa, não existe essa compensação. Vender no vermelho paga IR zero e acabou — você não leva nenhum crédito para a operação seguinte. Nas contas de imposto de renda essa assimetria é o que torna o giro de posição estruturalmente caro.

Vender no lucro também custa. Em 10 de agosto de 2026 os mesmos dez títulos valiam R$ 7.295,70, com R$ 1.105,70 de ganho: R$ 165,86 de IR na hora. O líquido reaplicado a 14,21% chega a R$ 9.376,24 no vencimento, contra R$ 9.428,50 de quem não mexeu — R$ 52,26 a menos, só de antecipar imposto.

Quem vende muito cedo enfrenta ainda o IOF. O Decreto 6.306/2007 cobra o imposto sobre o rendimento — nunca sobre o principal — em escala regressiva que zera no 30º dia. Sobre R$ 100 de rendimento:

Dias corridosIOFIRSobra do rendimento
1 diaR$ 96,00R$ 0,90R$ 3,10
10 diasR$ 66,00R$ 7,65R$ 26,35
20 diasR$ 33,00R$ 15,08R$ 51,93
29 diasR$ 3,00R$ 21,83R$ 75,18
30 diasR$ 0,00R$ 22,50R$ 77,50
Acima de 720 diasR$ 0,00R$ 15,00R$ 85,00

Uma armadilha de contagem: o prazo do IR e do IOF conta em dias corridos, enquanto o preço conta em dias úteis. São dois relógios diferentes rodando na mesma operação, e misturá-los é erro comum até em planilha de assessor.

Levar até o vencimento: o deságio expira sozinho

Esta é a parte tranquilizadora, e ela é mecânica. Se a taxa de mercado nunca mais mexer, o deságio some assim mesmo — porque o expoente du/252 vai encolhendo até zerar. Não é preciso "recuperação": o preço converge para R$ 1.000 pela passagem do tempo.

DataDias úteis restantesPreço de mercadoPreço na curvaDeságio
10/08/2026598R$ 729,57R$ 795,69−8,31%
04/01/2027499R$ 768,66R$ 826,37−6,98%
01/07/2027376R$ 820,16R$ 866,14−5,31%
03/01/2028248R$ 877,42R$ 909,57−3,53%
03/07/2028124R$ 936,71R$ 953,71−1,78%
01/01/20290R$ 1.000,00R$ 1.000,000,00%

O deságio não se recupera: ele expira junto com o prazo. É a mesma lógica dos juros compostos vista de trás para frente, e é o que a calculadora de valor presente faz em qualquer contexto.

Tesouro IPCA+: o que muda com o VNA

No Tesouro IPCA+ o preço tem duas partes: PU = VNA × cotação. O VNA é o valor nominal corrigido pela inflação desde 2000 — ele só sobe, ao ritmo do IPCA, e a marcação a mercado não o toca. Quem se mexe é a cotação, que é exatamente o mesmo fator de desconto de antes: 1 ÷ (1 + taxa real)du/252.

Dá para provar isso com os preços públicos, sem acesso a nenhum sistema. Pegando os seis Tesouro IPCA+ (Principal) negociados em 10 de agosto de 2026 e dividindo cada preço pela respectiva cotação, todos devolvem o mesmo VNA: R$ 4.741,39, com dispersão de R$ 0,04 — o resíduo do arredondamento do preço em duas casas. Se a fórmula fosse outra, cada título daria um número diferente.

Tesouro IPCA+ (10/08/2026)Taxa realduCotaçãoPreçoVNA implícito
20298,18%6890,806562R$ 3.824,24R$ 4.741,41
20358,08%2.1930,508552R$ 2.411,24R$ 4.741,38
20457,57%4.6990,256484R$ 1.216,09R$ 4.741,39
20507,51%6.0140,177611R$ 842,12R$ 4.741,37

A consequência prática é que o IPCA+ acumula dois movimentos ao mesmo tempo: a correção pela inflação, que é sua e não volta atrás, e a marcação, que oscila. Como o prazo desses títulos costuma ser longo, eles são os que mais balançam — foi o Tesouro IPCA+ 2035 que registrou a maior queda de preço desde 2023. Se você acompanha o que é o IPCA ou compara com o IGP-M, vale lembrar que a inflação entra no VNA, e não na cotação. Nas versões com juros semestrais, cada cupom é um fluxo descontado separadamente, e o cupom de 6% ao ano equivale a 2,9563% ao semestre — porque a capitalização é exponencial, não metade.

O Tesouro Selic também tem marcação — e por que ela é minúscula

Ao contrário do que muita gente supõe, o Tesouro Selic tem marcação a mercado. A diferença é que ele acompanha a taxa diária, de modo que o desconto se aplica apenas ao pequeno ágio ou deságio negociado sobre a Selic. Em 10 de agosto de 2026 ele saía a "Selic + 0,04%", com preço de R$ 19.598,00. Comparando a maior queda de preço de cada título desde 2 de janeiro de 2023:

TítuloMaior quedaDo pico……ao fundo
Tesouro Prefixado 2031−16,49%06/03/2024 · R$ 499,5319/12/2024 · R$ 417,16
Tesouro IPCA+ 2035−14,18%16/08/2024 · R$ 2.337,9830/01/2025 · R$ 2.006,47
Tesouro Prefixado 2029−11,06%21/08/2024 · R$ 620,7919/12/2024 · R$ 552,10
Tesouro Selic 2029−0,03%28/04/2023 · R$ 12.987,6102/05/2023 · R$ 12.984,15

Três centésimos de por cento contra dezesseis por cento. É essa diferença, e não a rentabilidade, que faz do Tesouro Selic o título indicado para reserva de emergência: dinheiro que pode ser chamado a qualquer momento não pode depender do humor da curva de juros. Com a Selic hoje em 14,00% ao ano, ele rende bem — mas o ponto é a estabilidade do preço. Se a dúvida é essa, vale entender o que é a Selic, o que é o CDI e qual a diferença entre os dois.

CDB, LCI e debênture: existe, mas quem recompra é o banco

Economicamente, todo título de renda fixa tem marcação a mercado — inclusive o seu CDB. A diferença é institucional, e ela importa. Primeiro, como vimos, CDB, LCI e LCA estão fora da regra da ANBIMA, então o extrato não é obrigado a mostrar o valor de mercado, e a maioria não mostra. Segundo, e mais importante: não há mercado secundário de verdade. Quem recompra o seu CDB antes do vencimento é o próprio banco emissor, pelo preço que ele decidir, quando decidir — e a chamada "liquidez diária" é uma liberalidade contratual, não um direito de mercado.

Na prática, isso significa que a marcação existe mas você não a vê, e o desconto na recompra tende a ser pior do que o de um título público equivalente. Debêntures, CRI e CRA estão na regra da ANBIMA e por isso mostram o preço — mas negociam pouco, o que torna o valor de referência mais estimativa do que cotação. Ao comparar alternativas com a calculadora de rendimento de CDB ou a calculadora de LCI e LCA, guarde o critério: a liquidez de um papel se mede pela facilidade de vender a preço justo, não pela existência de um botão de resgate.

Erros comuns

  • Achar que deságio é prejuízo. Em 10/08/2026 o título do exemplo estava 8,31% abaixo da curva e, ao mesmo tempo, 17,86% acima do preço pago. São duas contas diferentes.
  • Confundir a norma com uma lei. A regra nº 09/2023 é autorregulação da ANBIMA, cobre debêntures, CRA, CRI e títulos públicos, e exclui o Tesouro Direto, o CDB, a LCI e a LCA.
  • Contar dias corridos no preço. O preço usa dias úteis com o calendário do mercado, que inclui Carnaval e Corpus Christi; o imposto usa dias corridos. Um dia útil de erro vale 0,05% do preço.
  • Vender no pânico e deixar o dinheiro parado. A venda em si é neutra; o que realiza a perda é reaplicar a uma taxa menor, por prazo menor, ou gastar.
  • Girar a posição achando que "dá na mesma". Dá na mesma antes do imposto. Depois dele custou R$ 100,35 no exemplo, porque perda em renda fixa não gera crédito fiscal.
  • Usar a regra de bolso da duration em título longo. Num papel de dez anos ela erra 1,58 ponto percentual, sempre exagerando a queda — o que faz o investidor vender achando que está pior do que está.

Ferramentas relacionadas

Para o passo anterior a esta página, veja como investir no Tesouro Direto e a comparação entre renda fixa e renda variável. A mecânica de desconto usada aqui é a mesma da calculadora de valor presente e da calculadora de juros compostos; para financiamentos, a lógica reaparece na comparação entre a tabela Price e o SAC.

Para comparar alternativas de aplicação, use a calculadora de rendimento de CDB, a calculadora de LCI e LCA e a calculadora de poupança, lembrando que em fundos ainda entra o come-cotas. Do lado dos tributos, veja a calculadora de imposto de renda; para o calendário, a calculadora de datas conta os dias úteis. E para dimensionar o custo do outro lado do balcão, compare com quanto rende o FGTS e com a calculadora de juros do cartão de crédito.

Perguntas frequentes

O que é marcação a mercado?

É a atualização diária do preço do seu título de renda fixa pelo valor que ele vale hoje no mercado, e não pelo que renderia se ficasse até o vencimento. O cálculo é uma única divisão: o preço unitário é o valor de resgate dividido por (1 + taxa) elevado a dias úteis sobre 252. Se a taxa negociada hoje está acima da que você contratou, o preço cai e aparece um deságio; se está abaixo, aparece um ágio. Nada disso muda o que você recebe no vencimento — muda o que alguém pagaria para comprar o seu título agora.

Marcação a mercado é prejuízo de verdade?

Só em três situações. Se você levar o título até o vencimento, o deságio simplesmente expira: o preço converge para o valor de face sozinho, sem precisar de nenhuma recuperação do mercado. Ele vira perda de verdade se você vender e gastar o dinheiro, se vender e reaplicar a uma taxa menor, ou se reaplicar por um prazo mais curto. Vender e reaplicar na própria taxa de mercado do dia devolve exatamente o mesmo montante no vencimento original — por construção da fórmula.

Como calcular o preço do meu título hoje?

Use PU = 1.000 ÷ (1 + taxa)^(du/252), em que 1.000 é o valor de resgate do Tesouro Prefixado, "taxa" é a taxa de mercado do dia e "du" é o número de dias úteis entre hoje e o vencimento. Em 10 de agosto de 2026 o Tesouro Prefixado 2029 estava a 14,21% ao ano e faltavam 598 dias úteis: 1.000 ÷ 1,1421^(598/252) = R$ 729,5704, e o preço oficial publicado naquele dia foi R$ 729,57. A mesma conta acerta ao centavo os cinco prefixados em oferta.

Por que a marcação a mercado apareceu no meu extrato?

Por causa das Regras e Procedimentos para Apuração de Valores de Referência nº 09 da ANBIMA, em vigor desde 2 de janeiro de 2023, que obriga a mostrar o valor de mercado em extrato ou ambiente logado. Mas atenção ao alcance real: o art. 2º alcança debêntures, CRA, CRI e títulos públicos federais, e exclui expressamente o Tesouro Direto. CDB, LCI e LCA também estão fora. É autorregulação do mercado, não lei nem norma da CVM.

Vender no prejuízo e recomprar o mesmo título compensa?

Não, e o motivo é tributário. Antes do imposto a operação é neutra: quem vendeu dez Tesouro Prefixado 2029 no pior dia, 19 de dezembro de 2024, por R$ 5.521,01 e recomprou na mesma taxa chegaria em 2029 com os mesmos R$ 10.000. Mas a recompra cria uma base de cálculo nova e maior para o imposto de renda: o líquido cai de R$ 9.428,50 para R$ 9.328,15, uma diferença de R$ 100,35. Perda em renda fixa não gera crédito fiscal, então o prejuízo realizado não abate nada.

O Tesouro Selic tem marcação a mercado?

Tem, mas ela é minúscula. Como o título acompanha a Selic diária, o desconto se aplica apenas ao pequeno ágio ou deságio negociado sobre a taxa — em 10 de agosto de 2026 o Tesouro Selic 2029 saía a Selic mais 0,04% ao ano, com preço de R$ 19.598,00. A maior queda do preço desse título desde 2023 foi de 0,03%, contra 11,06% do Tesouro Prefixado 2029 e 14,18% do Tesouro IPCA+ 2035 no mesmo período. É por isso que ele é o indicado para reserva de emergência.